Franklin da Silva Gomes sofreu queimaduras nas pernas e nos pés, região mais grave. Ele recebeu alta na manhã desta sexta-feira (29) e se prepara para deixar o Hospital de Base, em Porto Velho.

Franklin e Aline estão juntos há quase 3 meses no Hospital de Base, em Porto Velho, por conta do tratamento nas queimaduras do segurança. — Foto: Mayara Subtil/G1
"Filho é filho e eu o amo. Faria tudo de novo". É este pensamento que faz Franklin da Silva Gomes, de 48 anos, manter viva a esperança de o mais breve possível retornar ao lar e reencontrar o pequeno Bryan Leonardo, hoje com 4 anos. O segurança salvou o próprio filho de um fosso em chamas, usado para incineração de resíduos, após o menino cair no buraco acidentalmente. Franklin sofreu queimaduras nas pernas e nos pés, região mais grave. Ele recebeu alta na manhã desta sexta-feira (29) e se prepara para deixar o Hospital de Base, em Porto Velho.
O episódio, ainda marcante na memória dele e da esposa, a pedagoga Aline Castro, de 29 anos, aconteceu há quase três meses em Guajará-Mirim (RO). À época, Bryan machucou uma das mãos, ficou internado, mas foi liberado uma semana depois do caso.
Apesar de debilitado pela quantidade de remédios que toma por dia – Franklin perdeu mais de 10 quilos desde a internação – e com a fala ainda fraca, o pai guarda consigo um grande trunfo: ter o filho vivo.
"Não me importaria de pular naquele fosso de novo por ele. É meu filho. Quero minha família reunida".
Por conta da rotina de viver em um hospital, remédios e constantes procedimentos cirúrgicos, pai e filho não se veem desde o acidente. Aline viu a criança pela última vez em Guajará, no mês de janeiro. No último domingo (24), Bryan completou 4 anos e o aniversário foi longe dos pais. Mas o que alivia a saudade do casal pelo menino é a internet.


Franklin e o filho conversam se veem por chamada de vídeo todos os dias. — Foto: Aline Castro/Divulgação
"Fazemos chamada de vídeo todos os dias. Vemos o nosso menino, que tá tão bem hoje. Depois da chamada, a gente fica pensativo, bate a saudade, que é muito grande. Fizeram uma festinha fofa para ele no aniversário, deram presentes. Só vimos fotos. Mas já já, sei que em breve, a família vai estar junta novamente", disse Aline.

Pai herói

Após o ato de Franklin, Aline olha para ele e hoje o vê como um pai herói. "São poucos os que fariam isso, poucos mesmo. Tem tanta gente por aí que não liga para os filhos, que abandona, que mata, sabe. Meu marido sempre foi um paizão. Sempre foram grudados. Tenho muito orgulho dele", opinou.
A coragem de Franklin fez com que o menino não se ferisse ainda mais. Ao G1, ele contou do pouco que se lembra daquela manhã de 30 de dezembro de 2018. O segurança estava com um vizinho perto do local onde tudo ocorreu e disse não ter visto quando Bryan correu para perto do fosso. Revelou que se recorda do momento em que o menino caiu no buraco em chamas e gritou por socorro.
"Nem pensei duas vezes. Entrei e tirei ele (Bryan)".
O buraco estava fechado apenas com um pedaço de telha. Franklin e Aline acreditam que o filho tenha pisado na telha sem perceber que aquilo tampava e se tratava de um fosso. Depois disso, após ser salva, a criança correu até a mãe para alertar o que tinha acontecido com o pai, que não conseguiu sair do buraco depois que tirou o menino de lá.
Pai salvou filho após criança cair em fosso em chamas. — Foto: Arquivo pessoal
"Ele só falava que o papai caiu no buraco. Estava chegando em casa quando aconteceu. Na hora não pensei direito e estava tudo incerto. Não sabia o que tinha acontecido. O Bryan estava com a mãozinha queimada, mas ele só falava do papai", lembrou a esposa do segurança.
"Daí fui até onde o Franklin estava com o Bryan no colo e só vi as mãos dele pra cima gritando 'Me tira daqui!'. Sem entender direito, tentei puxá-lo, mas não consegui", relatou Aline.
Em um ato desesperado, a pedagoga começou a gritar o máximo que pôde pelos vizinhos. Também sem compreender o que ocorria, alguns deles correram e puxaram Franklin para fora do fosso. O segurança saiu do buraco já desmaiado.
"Pensei que meu marido tinha morrido, pois ele estava todo preto das chamas. Ele caiu desmaiado. Vi uma viatura da PM passando, daí eu gritei e eles nos ajudaram. Os vizinhos ajudaram também chamando a ambulância", continuou Aline.
Em poucos minutos, a ambulância do Corpo de Bombeiros chegou e seguiu com Franklin ao hospital de Guajará-Mirim. A unidade do município faz apenas atendimentos de primeiros socorros. Os mais graves são encaminhados para Porto Velho. Foi o caso de Franklin.

Bryan também foi atendido em Guajará e a mãe o levou ao hospital na viatura da Polícia Militar (PM) local. Aline contou que o menino só foi chorar de dor na mão pela primeira vez já dentro da unidade. Mesmo assim, ele ainda perguntava pelo pai. Franklin teve queimaduras nos braços e nas pernas.
ranklin teve queimaduras nos braços e nas pernas. — Foto: Aline Castro/Divulgação
"Levei o Léo (Bryan) e o Franklin chegou na ambulância. Meu menino começou a chorar no momento que começaram a limpeza nele. Já o Franklin eu não imaginava que seria mais grave. Achei que iria tratar lá mesmo mesmo, mas os médicos falaram que ele precisava ser encaminhado para a capital o mais rápido possível. Foi quando me dei conta de que era grave", se lembrou Aline.
Franklin começou a entender o que tinha acontecido muito tempo depois. "Quando acordei já estava no hospital", recordou.
Na transferência para Porto Velho, Aline só teve tempo de pegar algumas roupas. O acidente aconteceu entre 9h e 10h. Pouco depois do meio dia, o casal já estava a caminho de Porto Velho e chegou por volta das 17h. O primeiro atendimento na capital ocorreu no Hospital e Pronto Socorro João Paulo II. Depois, Franklin foi transferido ao Hospital de Base.
A corrida contra o tempo para salvar Franklin foi dolorosa. Os buracos no caminho que faziam a ambulância balançar e a falta de água pioraram a situação de Franklin.
"A viagem foi horrível. Franklin sofria com as dores que não cessavam. Ele pedia muita água, mas não podia. Ele achava que ia morrer. A estrada também não ajudava e o balanço da ambulância era ruim para ele e para mim, que quase vomitei. Ele chegou em Porto Velho quase nas últimas. Foi Deus", relembrou a esposa do segurança.

Fonte: G1