Ao longo dos 100 quilômetros da estrada de terra que corta a Floresta Nacional do Bom Futuro, próxima a Porto Velho, Rondônia, é fácil encontrar mata nativa queimada. Em seus 20 anos de história, essa unidade de conservação na Amazônia nunca teve seu destino tão ameaçado por invasões, grilagem, desmatamento e fogo como nos últimos meses.
Estrategicamente posicionada, uma brigada de incêndio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) tenta evitar que uma área de reflorestamento do tamanho de 70 campos de futebol seja a próxima vítima dos incendiários. Os criminosos não poupam árvores jovens ou centenárias ao lançar, geralmente sobre uma moto, um “coquetel” antes de atear fogo.
Em todos os nove estados da Amazônia Legal, casos semelhantes fizeram o número de alertas de queimadas disparar em 2019. De janeiro a agosto, foram mais de 46 mil focos registrados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Um aumento de mais de 100% em comparação ao mesmo período do ano passado.
Em Bom Futuro, uma clareira aberta poucos dias antes da visita da DW Brasil ao local, no fim de agosto, deve virar cinzas nos próximos dias, dizem os agentes. Uma estaca fixada no solo indicava que o lote já fora marcado para a venda. É como funciona a cadeia do crime na Amazônia em unidades de proteção: invasores desmatam, ateiam fogo, jogam sementes de capim, marcam e vendem o terreno ilegalmente.
Awapy diz que a destruição é muito rápida. “A gente não tem nem ideia como que pode acontecer isso. Isso é gente que tem dinheiro e paga muita gente para trabalhar”, afirma. “É muito triste a gente ver a floresta em pé lá e depois sendo desmatada, do nada. E o pessoal que faz isso sabe que a terra é de índio também.”

Avanço não contido

Natural de Rondônia, a pesquisadora Maria Madalena Cavalcante, da Unir, pontua que o histórico do desmatamento é “bem emblemático” no estado. Da Floresta Amazônica, pouco sobrou.
“O que a gente tem em termos de floresta está muito ligado às áreas protegidas, pegando as unidade de conservação e terras indígenas”, diz Cavalcante, apontando na tela de seu computador para os mapas gerados a partir de estudos. “E essas reservas sofrem o impacto do desmatamento.”
Ivaneide Cardoso, da organização Kanindé, acaba de voltar de uma semana de visitas a aldeias e relata que viu aumento das queimadas, do desmatamento e das invasões. “Isso é porque a Funai está enfraquecida, o Icmbio está enfraquecido, o Ibama está enfraquecido”, comenta.
De acordo com decreto do presidente Jair Bolsonaro, as Forças Armadas devem realizar operações de combate às queimadas na Amazônia e de crimes ambientais até 24 de setembro. Para Cardoso, a ação é tardia, só tendo sido iniciada meses depois de alertas de aumento de desmatamento e da repercussão internacional devido às queimadas.
“O que o governo tinha que fazer era manter os órgãos fortalecidos o tempo todo, para que pudessem exercer seu papel de proteção da natureza. Porque, quando o Exército for embora, o que que vai acontecer com essas áreas?”, questiona.
A DW Brasil procurou o governo de Rondônia e o Ministério do Meio Ambiente, ao qual estão vinculados o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o ICMBio. Nenhum dos órgãos atendeu às solicitações de entrevista.
Por Deutsche Welle